quarta-feira, 5 de outubro de 2022

O fundo é mais embaixo

A eleição passou. Mas ainda teremos o segundo turno e a continuidade das turbulências gerais. O processo eleitoral está afetando tudo em nossa sociedade. Está para além das questões políticas e comportamentais. Está afetando, como sempre acontece, a economia de forma geral.

É fato que os indicadores estão melhorando, o que significa que, de momento, já atingimos o fundo do poço. No começo do ano era esperado que nossa economia crescesse pífios 0,3%, o PIB agropecuário aumentasse em 3,0% e que teríamos uma inflação de 5,0% em 2022. Atualmente as expectativas mudaram e esperasse um crescimento da economia em torno de 2,80%, que o PIB agropecuário cresça 10,9% e que os preços subam 5,6%.

Há um cenário futuro favorável, se comparado com os últimos três anos. Sempre lembrando que neste período tivemos a crise econômica causada pela pandemia, porém não era de se esperar resultados extraordinários do governo de plantão e de sua equipe econômica.

Por mais que as pessoas que participam da equipe econômica sejam profissionais bem formados, competentes e de reputações ilibadas temos que considerar uma absoluta ausência de concepção e implementação de políticas econômicas que pudessem impactar de forma destacada nossos agregados, causando um período de prosperidade. Digo isto porque foi exatamente o que prometeram em 2018, por ocasião da campanha eleitoral.

Quando discuto esta temática com as pessoas percebo uma defesa intransigente das políticas “implementadas” por parte de algumas delas. Só que não consigo identificar nas narrativas ações robustas, somente arremedos de medidas que pouco (ou quase nada) surtiram de efeitos na economia. Esta discordância não significa que o governo não teve méritos em suas ações de política econômica, somente que poderiam fazer muito mais. Pelo menos um pouco do que prometeram. Só que não o fizeram.

A economia está melhorando porque o mundo está melhorando. Não é nada provocado pelo governo. Se podemos dar os méritos para algum segmento, temos que dar para os empreendedores brasileiros do lado da oferta e para os trabalhadores, do lado da demanda. Muito pouco fez o governo. Pouco, mesmo. Porque as políticas assistenciais foram necessárias e a maioria dos países as fizeram. Só copiaram.

Agora estamos caminhando para o segundo turno das eleições presidenciais e ainda não identificamos, de nenhum dos lados da disputa, um conjunto mínimo de propostas econômicas factíveis. Como os candidatos irão enfrentar os desafios econômicos do controle dos preços, do crescimento econômico e da geração de empregos? Vou além: como os candidatos pretendem (ou não) reduzir a pobreza e a extrema pobreza? Como pretendem erradicar a fome? Soma-se às questões econômicas o acesso a saúde e educação de qualidade e uma segurança pública que proteja a todos, tanto no ambiente urbano, quanto no rural.

Como podemos notar sobram problemas para serem resolvidos e faltam soluções, ou mesmo propostas de soluções, para estes problemas. Nenhum dos lados arrisca dizer, sequer insinuar, alternativas viáveis. Se limitam a defender as bandeiras ideológicas para atender os interesses dos respectivos séquitos e, o que é pior, sempre financiando com recursos públicos que o conjunto da sociedade terá que pagar.

Com efeito, o que teremos, independente do vencedor da eleição, é o aumento do endividamento público, a persistência de desequilíbrio das contas públicas e a manutenção da ineficiência do estado. Só temos que ter o cuidado para que não “cavem” ainda mais, aprofundando o fundo do poço.


quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Minha escola

Recentemente estive visitando a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Profa. Linda E. A. Miyadi (CEEBJA), em Apucarana. O diretor, professor Jorge Marques, foi muito atencioso e me acompanhou na visita. Passando pela “sala dos professores” ele comentou com uma professora que estava no local que eu sou da universidade e, prontamente, ela disse que me conhecia e que havia sido minha professora.

Fiquei curioso, pois não a reconheci de imediato, e perguntei onde ela tinha lecionado para mim. “Foi no Premem”, respondeu. Era a professora Lorena Martins, de inglês. Já fazem mais de quarenta anos que estudei no Premem. Fiquei muito contente de reencontrá-la e pudemos conversar rapidamente sobre a escola que era um modelo tanto dentro do ensino comum, quanto nas atividades de formação especial.

Acredito que a escola tenha sido construída a partir do Programa de Expansão e Melhoria do Ensino (Premem), do governo federal. Realmente era algo muito especial estudar naquela escola. A formação especial visava fornecer aos alunos uma visão geral do campo de trabalho. Cada matéria deste módulo tinha a sua própria estrutura e os alunos é que se deslocavam para os ambientes específicos. Tínhamos aulas de “Técnicas Comerciais” onde aprendíamos a redação técnica comercial e cálculos básicos de finanças. Na disciplina de “Indústria Caseira” os alunos tinham contato com a culinária, produção de conservas, entre outros assuntos.

Também tinha uma oficina completa, com ferramentas especiais (inclusive um torno mecânico) para a disciplina de “Técnicas Industriais” e na de “Técnicas Agrícolas” a sala de aula era externa. Fazíamos hortas, compostagens e tínhamos contatos com a temática que hoje é conhecida como agronegócio. Aprendíamos muitas coisas que poderiam nos dar uma orientação para a vida profissional, além do currículo normal da educação básica. Me orgulho muito de ter estudado no Premem, hoje Colégio Estadual Polivalente Carlos Domingos Silva.

Nossa sociedade, principalmente nossos jovens, precisam de uma escola com as características do “antigo” Premem. É necessário que os nossos agentes políticos se preocupem com a educação profissional para além do que temos hoje.

É comum nos municípios existirem relações com muitas vagas de empregos que demoram para serem preenchidas. Isto não acontece porque não tem desempregados. A demora no preenchimento das vagas ocorre, na maioria das vezes, pela ausência de qualificação dos candidatos para preenchê-las. É claro que temos a barreira da exigência da experiência, mas se o candidato tiver um curso técnico que o credencie para a função já ajuda, né?

Além da formação profissional também era propiciada a formação cidadã com a construção de uma visão crítica da realidade posta. É um modelo muito bom e que deveria retornar. Espero que os eleitos no próximo pleito se sensibilizem com estas questões e façam dos Premem’s a “nova Fênix paranaense”. Muitos podem até não concordar, criticar e contra-argumentar. Tudo bem. O importante é debater.

O que temos que concordar é que a sociedade precisa de alternativas de emprego para nossos jovens. Mas também temos que concordar que precisamos dar as oportunidades necessárias para que estes jovens estejam aptos para elas. Condições para isto, temos. Basta querer.

Foi muito bom rever a professora Lorena Martins. Também foi muito bom relembrar do Premem, a minha escola. Espero que muitos jovens da atualidade e do futuro próximo tenham a oportunidade e o orgulho de estudar numa escola como o Premem dos anos 1980.

 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Do que precisamos

Quando buscamos discutir a melhoria da qualidade de vida é muito comum as pessoas efetuarem cobranças e críticas aos órgãos públicos, pois na visão de muitos é responsabilidade do setor público estabelecer condições de melhoria da qualidade de vida da população. Considerando os direitos sociais estabelecidos em nossa Constituição Federal é certo que boa parte desta responsabilidade recai sobre o poder público.

Abordando a temática de uma forma mais pragmática e responsável temos que a capacidade de financiamento das políticas necessárias para se garantir os direitos sociais expressos na Carta Magna é limitada. Primeiro pela característica do gasto público que, via de regra, não possui a devida qualidade. Depois podemos considerar a própria incapacidade de o setor público diagnosticar, unilateralmente, o que é necessário e prioritário para todos os cidadãos do país.

Neste contexto é que temos que discutir a melhoria da qualidade de vida considerando uma estratégia “de baixo para cima” começando nas localidades, e não de “cima para baixo”, concebidas em “palacetes acarpetados” nas capitais estaduais ou mesmo no Distrito Federal.

As reais necessidades devem ser auscultadas direto nas comunidades, até porque a necessidade de uma região não necessariamente é a mesma da vizinha ou mesmo de outra distante.  O que se tem que promover é a discussão de alternativas para a dinamização econômica e social de uma localidade. E isto tem que ter a participação de representantes de todos os segmentos sociais, não se limitando a uma ação “chapa branca”.

Os aspectos territoriais devem ser considerados e o objetivo central não pode desfocar do fortalecimento dos atores locais e, principalmente, da cooperação. Há diversas experiências nacionais e internacionais de desenvolvimento local (melhoria da qualidade de vida) a partir de processos cooperativos. Todos sabemos que dividir enfraquece. Estudamos isto em política e sociologia.

É possível desenvolver a partir de influências exógenas, entretanto, dependendo das particularidades do tecido social e produtivo de uma região nem sempre esta estratégia se viabiliza. Temos que começar “de baixo para cima”. Explorar as potencialidades e combater as fragilidades de uma região. O professor Jandir Ferrera de Lima ensina que o ponto de partida é “conhecer os problemas; ter vontade de resolvê-los e ter a capacidade de mobilizar os indivíduos em prol de um projeto coletivo”.

O grande problema de muitas regiões é o individualismo, o interesse de colocar os interesses particulares, pessoais, de pequenos grupos de interesse à frente dos coletivos. Por isto uma governança plural é importante. Não se trata de dizer que o poder público não deva participar, pois as ações e apoio político são fundamentais. Sem eles não acontece, mas o processo não pode ser conduzido a partir de objetivos e metas de gabinetes.

É importante responder a diversas perguntas: Qual é o local? Quais os atores? Quais as atividades econômicas relevantes? Quais os problemas exógenos que podem afetar? Tem apoio político independente de quem coordena? Quais os elementos técnicos, gerenciais e financeiros?

Estas questões somente podem ser respondidas pelos atores locais. Não adianta “importar” metodologias e coordenadores para condução do processo. Muitas vezes não dá para copiar ou reproduzir experiências de outros locais. Convivemos, na mesma região, com locais desenvolvidos e outros atrasados. O que precisamos é estimular as regiões atrasadas para harmonizar o desenvolvimento regional.


quarta-feira, 14 de setembro de 2022

O que nos afeta

O imediatismo é um comportamento comum no indivíduo humano. A amnésia de memória curta, também. Assim o é nossa memória política. Muitos têm uma paixão por políticos e passam a tê-los como notáveis solucionadores de problemas econômicos e sociais. Na verdade, estes últimos não fazem nada mais do que a obrigação para que foram eleitos, quando realmente executam seus respectivos trabalhos.

Se avaliarmos o que nos afeta no curto e no médio prazo no quesito econômico e, consequentemente, no social teríamos claro que no curto prazo as variações da inflação e do desemprego nos afetam vigorosamente. No médio prazo acrescentamos o crescimento econômico.

Pois bem, as perguntas que podemos fazer são: quem acompanha a evolução destes agregados com uma visão mais pragmática e crítica para tomar suas decisões, principalmente as políticas? Quantas pessoas sabem quanto crescemos nos últimos vinte anos? Quais foram os índices acumulados de inflação por períodos distintos? Qual é a evolução do desemprego no curto e médio prazo em nossa economia? Poucas pessoas saberiam responder objetivamente, mesmo com o acesso a estas informações estando facilitado pela internet.

Em 2022 nossa economia deverá crescer 2,4%, a inflação será de 6,4% e o desemprego deverá encerrar o ano com uma taxa inferior a 9,5%. Os mais iludidos irão apontar os dedos e dizerem que as coisas estão boas, pois o crescimento é positivo frente a recessão recente que tivemos, a inflação do ano passado foi superior a 10% e está sob controle, inclusive com alguns preços em queda e que o desemprego estava superior a 14%. E eles até terão razão, mas estão esquecendo ou omitindo muitas informações. Ou não sabem disto e ficam reproduzindo frases feitas.

Do ano 2000 até a previsão de crescimento deste ano teremos um crescimento acumulado de 64,8%. Pode parecer muito, mas temos que avaliar os períodos. Se analisarmos períodos dos mandatos presidenciais o atual será o segundo pior dos últimos 22 anos, ou seja, dos últimos cinco mandatos. Só não é pior do que o do período Dilma/Temer. Numa perspectiva mais abrangente, no período de 2003 a 2012 (10 anos) crescemos 45,5%. Já no período de 2013 a 2022 deveremos acumular um crescimento de 3,8%.

Também temos que lembrar que nos últimos vinte anos já tivemos inflação anual inferior a 3% e que uma inflação de 6,4% é muito para nossa economia. E que nos últimos dez anos o desemprego já esteve abaixo de 6,5%. Portanto, os indicadores previstos para o ano de 2022 não são tão bons assim. Podem representar uma retomada frente ao cenário recente, mas não é para se entusiasmar muito.

Neste ano ficamos felizes com a queda do preço dos combustíveis e da energia elétrica, mas poucos lembram que aumentaram vertiginosamente nos últimos anos. Os chamados preços administrados apresentarão deflação neste ano de 4%, mas as expectativas apontam elevação de seus preços em 6% em 2023, 3,6% em 2024 e 3,3% em 2025. O que estamos tendo de alívio neste ano será recomposto nos próximos anos.

Os benefícios sociais que estão surgindo no presente terão seus impactos nas contas públicas e serão compensados com menos auxílios no futuro próximo. Isto implicará em menos gasto público para o pagamento da dívida contraída no presente. Não tem mágica.

E o pior de tudo é que não temos nenhuma proposta concreta de solução efetiva para estes problemas. Pelo contrário, as propostas são genéricas e não abordam soluções efetivas para nossos reais problemas. Sabemos o que nos afeta. Só não sabemos quem resolverá os problemas.


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

O papagaio e o homem

Há muito tempo acompanho os debates acerca do desenvolvimento socioeconômico em nossa região. Houve um momento em que estes debates eram cíclicos, ou seja, (res)surgiam de tempos em tempos, como os processos eleitorais. Ele se fixou, de certa forma, quando atores da sociedade civil organizada passaram a capitaneá-los.

Nesta perspectiva é importante a união de todos os atores e, em especial, as universidades que podem auxiliar na produção de estudos, levantamentos e pesquisas em sintonia com as demandas de desenvolvimento da região. A primeira questão a ser definida é: qual é a região? Não podemos discutir potencialidades, fragilidades, ameaças e estratégias para a melhoria da qualidade de vida de uma região se não definimos qual é a região.

Também há de se começar a consolidar uma base de dados regionais para subsidiar estratégias e políticas públicas e privadas. E neste ponto em especial a academia, fomentada pelas administrações públicas municipais, podem e devem “puxar” a responsabilidade para si e promover esta consolidação.

A região objeto do projeto de desenvolvimento deve ter bem definido quais são os municípios que a compõem e seus respectivos estágios de desenvolvimento, bem como os principais indicadores e as possíveis estratégias para uma política convergente para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. O que produzimos? Quais são as nossas forças endógenas? Quais são os nossos benchmarks?

Sequer temos um levantamento dos movimentos pendulares existentes nos municípios de nossa região (qual região?). Movimentos pendulares são os efeitos de deslocamentos casa-trabalho e casa-escola entre municípios e regiões, o que podem gerar externalidades (positivas e/ou negativas) para os municípios envolvidos.

Pessoas que se deslocam para estudar ou trabalhar em outros municípios tendem a efetuar parte de seus gastos fora de seu domicílio. E os municípios que recebem os fluxos pendulares “perdem” parte da renda gerada pelos salários, pois a outra parte é aplicada no domicílio.

A experiência do debate sobre o desenvolvimento regional já é longa, porém deve ser mais objetiva e prática. Onde isto ocorreu os indicadores de qualidade de vida melhoraram. Basta acompanhar as experiências gaúchas e catarinenses.

Temos potencialidades naturais fantásticas em nossa região: uma produção agrícola diversificada, instituições de ensino de referência, um setor industrial forte e um setor de serviços com grande volume de atividade, basta unir as forças e objetivos para traçar uma estratégia de desenvolvimento regional com uma governança bem estruturada e democrática. A exemplo do que sempre ocorreu. Estas ações não podem descontinuar para evitar comportamentos oportunistas por parte de agentes políticos que aparecem no debate em ciclos de quatro em quatro anos.

As perguntas apresentadas não são retóricas e as respostas devem ser objeto de profundas reflexões. O termo que temos que fixar em nossas atitudes é “objetivar”. Temos que definir, de forma clara os objetivos a serem alcançados, mapear as informações disponíveis e traçar as estratégias para lograr o êxito. Pode até parecer fácil, mas não é se não objetivarmos. Ficar na falácia não nos leva aos resultados pretendidos. Se é que sabemos quais são.

A semelhança entre os papagaios e os seres humanos é que ambos possuem o mesmo equipamento para falar que os humanos. Porém os humanos podem refletir e agir de forma proativa, além de se organizarem em grupos sociais. Estas diferenças é que geram o nosso desenvolvimento. Então, mãos à obra.


quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Sem rumos

A inflação está demonstrando comportamento de queda. Pelo menos esta é a expectativa do mercado financeiro, que é divulgada semanalmente pelo Banco Central do Brasil (BCB). Este evento ocorrendo no período eleitoral é motivo para que os apoiadores do governo se “assanhem” e comecem a comentar que a política econômica do governo de plantão está surtindo efeitos. Mas que política econômica? Ela inexiste. Na realidade nunca ficou claro qual é a política econômica do atual governo.

Também não está evidente qual é a política econômica proposta para o próximo mandato, numa eventual reeleição. E isto não é exclusividade do atual inquilino do Planalto. O candidato que é apontado como líder nas pesquisas de intenção de votos também não tem uma proposta clara de política econômica. Como é possível se tomar uma decisão eficiente de voto sem as informações dos planos de governos propostos?

Voltando à questão da inflação temos que ela ficou bem acima do teto da meta para o ano de 2021, o que causou a necessidade do presidente do BCB apresentar uma carta aberta apontando as causas que levaram ao não cumprimento da meta de inflação bem como apresentar uma estratégia para que esta apresente uma convergência para a meta e o horizonte relevante de política monetária. Desde a implantação do sistema de metas de inflação, no ano de 1999, foram expedidas seis cartas abertas e tudo indica que teremos mais uma no início de 2023, explicando o descumprimento da meta no ano de 2022.

Cartas abertas em anos consecutivos não ocorriam desde 2003 e pode ser que tenhamos mais uma para explicar o descumprimento da meta para o ano de 2023, cuja expectativa atual está em 5,30%, levemente acima do teto da meta que é de 5%. Na carta aberta explicando o não cumprimento da meta do ano de 2021 é apontado que a inflação retorne para os limites da meta no ano de 2023, podendo ocorrer em 2022. Não ocorrerá em 2022 e ainda poderá ocorrer em 2023, como asseverado pelo presidente do BCB.

Embora não se identifique uma política econômica traçada num plano de governo o BCB tem como ferramenta natural para o combate da inflação a política monetária, que vem sendo utilizada sem restrições e sem preocupações em período pré-eleitoral, podendo, inclusive, termos aumento dos juros básicos da economia durante o período eleitoral, embora entenda que isto não deva ocorrer.

A inflação está desacelerando, porém ainda está acima da meta. O arrefecimento da inflação é motivado pela eficácia da política monetária, sim, mas também temos que considerar que o período de baixo crescimento e desemprego elevado (embora também em queda) contribuam para uma menor pressão sobre os preços, além de uma relativa normalização das cadeias globais de suprimentos, que também estão gerando a acomodação dos preços no mercado internacional, principalmente dos alimentos.

Mas insisto na inexistência de um plano de governo dos principais candidatos que apresente de forma clara quais são as suas principais metas e ações para a área econômica nos próximos quatro anos. Como pretendem combater a inflação? Como pretendem gerar empregos? Como pretendem promover o crescimento econômico? Qual é a política proposta para o aumento da renda média real dos brasileiros? Nada disto está sendo apresentado de forma objetiva.

Pelo que tudo indica, mais uma vez, iremos escolher o comandante da nação sem a apresentação de um plano de governo factível. E o mais espantoso é que não vemos uma cobrança, nem mesmo uma preocupação por parte dos eleitores para esta ausência. Lamentável.


quarta-feira, 24 de agosto de 2022

A união faz a força

A dinâmica econômica regional pode ser acompanhada e avaliada pelo saldo da balança comercial. No caso do Vale do Ivaí temos que este saldo foi crescente nos últimos quatro anos. Em 2018 o saldo comercial externo foi de US$ 33,6 milhões e saltou para US$ 63,1 milhões no ano de 2021. Nos primeiros sete meses do ano de 2022 o saldo já acumula um total de US$ 12,7 milhões.

Nem todos os municípios possuem movimentação comercial com o setor externo. Dos 26 municípios somente 15 exportam e 10 importam, sendo que três apresentaram resultado comercial deficitário em 2021. Jandaia do Sul, embora não apresentou déficit no ano de 2021, o apresentou nos anos de 2018 e 2019. Esta condição não significa nada de ruim, pois o desempenho depende, além do valor, de sua composição.

Os municípios de Califórnia, Faxinal e Marumbi são os que apresentaram volume de importações superiores aos de exportações. Dos que possuem saldo superavitário em 2021 os destaques ficam para São Pedro do Ivaí e Apucarana com saldos de US$ 32,9 milhões e US$ 13,2 milhões, respectivamente.

Embora seja uma forma de analisar a dinâmica econômica regional não se pode estabelecer o rótulo de crescimento ou de desenvolvimento regional a partir somente do saldo comercial externo do município e da região. Esta análise é muito mais complexa e deve ser estudada e avaliada com muita cautela.

O desenvolvimento de uma região pode ser entendido como sendo um estágio ou um processo e o estímulo deste desenvolvimento pode ocorrer de forma episógena, através de intervenções externas, ou de forma endógena, baseada em valores locais. Fato é que o desenvolvimento econômico regional deve passar por um acompanhamento e coordenação, tipo uma governança. Sem esta coordenação o desenvolvimento até pode ocorrer, mas poderá demorar muito mais tempo.

No caso do desenvolvimento baseado em valores locais (endógeno) os elementos importantes são os patrimônios natural, histórico e cultural. Portanto, essa governança/coordenação deve ser multi e interdisciplinar e multisetorial, não podendo recair numa constituição tipo “chapa branca”, onde apresente uma composição majoritária de representantes de órgãos públicos. O setor produtivo privado, as instituições civis organizadas e representantes de movimentos sociais podem e devem participar. De forma paritária.

 Boa parte das tentativas que recaem sobre grupos concentrados não acabam surtindo efeitos positivos nas suas funções finalísticas. Outro elemento a ser considerado é a utilização políticas do processo em períodos eleitorais. Este comportamento pode gerar a insatisfação da parte que não aprecia o envolvimento político-partidário do processo, afastando-os e fragilizando a governança. Com isto muito esforço pode ser perdido e o processo de tornar cíclico e estéril.

A questão do desempenho comercial externo da região do Vale do Ivaí pode e deve ser estudada com mais profundidade e identificado os fatores de oportunidades e de desafios para diversidade econômica regional. O fator locacional da produção é importante e fundamental para o diagnóstico, avaliação e coordenação do processo de desenvolvimento, mas não deve ser considerado como único.

Para além da questão da localização das atividades produtivas também temos que considerar um conjunto de ações efetivas de políticas públicas e de envolvimento dos residentes no processo de desenvolvimento. Nossa região é rica e podemos melhorar o padrão da qualidade de vida, mas para isto a união dos atores é o começo de tudo. Juntar significa fortalecer.