sábado, 6 de junho de 2020

Uma nova mensagem a Garcia


A recuperação da economia após o término da pandemia começa a ser discutida por muitos agentes políticos. O governo federal não deixou claro se está discutindo isto e se está não fez nenhum comentário. Alguns governadores anunciam que também estão discutindo o tema. Daqui a pouco, por conta de 2020 ser um ano eleitoral, até prefeitos vão divulgar que estão discutindo a retomada da economia.

Estes debates acerca de como funcionará a economia após o fim da pandemia não pode ficar restrito aos palacetes acarpetados dos mandatários e de seus círculos restritos de assessores. Tem que haver publicidade dos caminhos que estão sendo traçados, pois o comportamento do setor público irá repercutir diretamente na vida de todos os cidadãos.

Antes da crise atual a economia brasileira estava passando por uma crise fiscal sem precedentes. Isto tem relação com as receitas e com as despesas públicas e o atual quadro econômico está agravando a situação fiscal brasileira. Com efeito, num futuro próximo haverá necessidade de um esforço maior para tentar equilibrar as finanças públicas.

É isto que nossos governantes não querem discutir publicamente, pois as soluções discutidas podem não ser tão agradáveis para a totalidade da sociedade, principalmente para os mais pobres.

Esta opinião se fundamenta no fato de que no momento atual as receitas públicas estão reduzindo por conta do baixo nível de atividade econômica. Entretanto, as despesas não acompanham este movimento. Pelo contrário. Em muitos casos as despesas públicas estão aumentando. Por conta disto há previsão de aumento do déficit público para este ano.

Muitas pessoas podem achar que o déficit do setor público não atinge suas vidas. Ledo engano. Atinge a todos, e de forma mais violenta as famílias mais pobres. O desequilíbrio nas contas públicas é compensado com o aumento do endividamento do setor público e para conseguir fazer os empréstimos necessários pode ocorrer o aumento dos juros básicos da economia que afeta negativamente a capacidade e interesse de investimento das empresas. Daí a atividade econômica arrefece, desacelera, podendo estagnar ou mesmo reduzir. Isto gera mais desemprego e queda na renda das pessoas.

Por conta disto é preciso começar a discutir a retomada da economia e neste contexto discutir como o setor público terá que atuar. Como deverá ser realizada a política fiscal da União, dos estados e dos municípios. Esta discussão não pode ficar restrita, deve ser ampla. A forma com que nossos agentes políticos decidem arrecadar e, principalmente, como decidem gastar os recursos públicos é de interesse de todos.

É certo que eles estão discutindo formas de arrecadar mais para cobrir o rombo nas contas públicas, mas devem discutir o “como gastar”. Com o que deve ser gasto os recursos públicos disponíveis. Deve haver mais transparência e mais participação da sociedade nestas discussões, pois as notícias de corrupção e desvios de recursos públicos continuam “pipocando” diariamente, e não há transparência suficiente dos gastos públicos.

O mundo não será o mesmo após a pandemia do coronavírus e, certamente, a economia também não. Quem acreditar que nada mudará está vivendo como Alice, no país das maravilhas. Alguém ou alguns terão que levar esta notícia para eles. Fazer o papel de Rowan, personagem do conto do jornalista americano Elbert Hubbard, intitulado “Mensagem a Garcia”.

Todas as pessoas devem se preocupar como está sendo gasto o dinheiro público, pois disto depende o tempo de recuperação de nossa economia. Disto depende a redução do desemprego.

sábado, 30 de maio de 2020

O dia depois de amanhã

Ninguém sabe ao certo quando é que a pandemia irá acabar. Nem mesmo sabemos em que estágio da “curva” de contaminação nosso país está. Enquanto isto o Brasil vai contando seus mortos, sem que isto abale o astral ou gere sequer uma nova ruga no semblante do presidente da República. As preocupações dele são outras.

A pandemia trouxe consequências danosas para a economia mundial e a atividade econômica está sofrendo efeitos negativos muito vigorosos, como o aumento do desemprego, redução da renda média da população e o seu consequente empobrecimento. Isto sem falar no contingente de pessoas e famílias que romperam a linha da pobreza, passando a ser consideradas miseráveis. Economicamente falando miseráveis são as pessoas que vivem em condições de miséria, a extrema pobreza.

O dado mais atual sobre a extrema pobreza no Brasil é referente ao ano de 2018 e foi divulgado em novembro passado através da Síntese de Indicadores Sociais (SIS), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2018 atingimos nível recorde de pessoas vivendo em condições de miséria: 13,5 milhões de brasileiros. É claro que os efeitos econômicos da pandemia pioraram (e ainda piorarão) estas estatísticas.

As estratégias de isolamento e distanciamento sociais adotadas por muitos países reduziram a demanda global e por conta disto o nível de atividade caiu drasticamente. No Brasil, embora não tenhamos praticado o isolamento social estamos sofrendo os efeitos econômicos desta prática no resto do mundo somados aos do distanciamento social aplicado por aqui.

Por conta disto nossa economia deverá encolher cerca de 6%, de acordo com as estimativas dos analistas do mercado financeiro. Mas há quem acredite que a queda será maior, cerca de 8%. Na realidade ainda não é possível dimensionar “o tamanho do buraco” que poderá ser ampliado pelo negacionismo bolsonarista acerca da relevância da crise sanitária mundial.

Dados da PNAD dão uma pequena mostra do que nossa sociedade terá que enfrentar: a população ocupada teve uma redução de cerca de 5 milhões de pessoas no trimestre móvel encerrado em abril e comparado com o trimestre encerrado em janeiro deste ano. De forma geral apresenta que o número absoluto de pessoas desocupadas aumentou em 898 mil, na mesma análise. Porém, outros dados divulgados também preocupam, como: a população subutilizada, a população fora da força de trabalho, a população desalentada, a quantidade de trabalhadores por conta própria e a taxa de informalidade.

Neste contexto caótico temos a certeza de que a economia irá se recuperar. Demorará muito tempo, mas se recuperará. Muitos poucos economistas arriscam prever como e quando se dará a recuperação de nossa economia. O ministro Paulo Guedes afirmou que o mundo irá se surpreender com o desempenho econômico brasileiro pós-pandemia. Só ele acredita nisto. Ninguém mais. Na verdade é difícil de saber se ele mesmo acredita nisto ou está somente tentando motivar as pessoas. Mas pode demorar cinco anos, e a economia se recuperará.

O que não se recupera são vidas humanas. E o negacionismo citado somado à grande popularidade do presidente pode vulnerabilizar uma parcela da população, as expondo ao risco de contaminação. Isto sem falar numa possível segunda onda da Covid-19.

O ano de 2020 não está sendo nada bom. A pandemia mudou completamente a vida das pessoas e também das empresas e depois deste ano muitas coisas irão ser tratadas de forma diferente. Ainda não é possível dimensionar estas mudanças, mas o que é certo é que não sabemos como será o dia depois de amanhã.

domingo, 19 de abril de 2020

Correndo atrás

Os efeitos da crise econômica causada pelo coronavírus serão devastadores na economia mundial. No Brasil não será diferente, porém há a necessidade de as autoridades econômicas tomarem medidas para amenizar estes efeitos sobre a população com maior vulnerabilidade social.

Muitas pessoas tentam relativizar os efeitos da crise e outros, inclusive o presidente Bolsonaro, afirmam que a queda na atividade econômica e o fechamento de pequenas empresas serão causadas pela estratégia de isolamento social como combate à propagação do vírus. O discurso do presidente vem no sentido de criticar o isolamento e distanciamento social como medida de prevenção, uma vez que, com esta estratégia, muitas atividades econômicas são prejudicadas.

Pois bem, não tem uma fórmula pronta para o enfrentamento de crises econômicas. Mesmo para uma crise global, os efeitos locais dependerão muito dos fundamentos de cada economia, ou seja, de como que as autoridades econômicas administravam os seus agregados econômicos. Por conta disto, os efeitos são de difícil previsão. O que é certo é que a atividade econômica irá cair causando um aumento do desemprego e o fechamento de muitas empresas.

É fato que os efeitos desta nova crise na economia brasileira serão maiores do que os das anteriores, há quem afirme que os efeitos serão os piores dos últimos 120 anos. Tudo vai depender das “respostas” do setor público para o enfrentamento da crise econômica. Em nível federal a maior desconfiança fica sobre as ações da equipe econômica de aceitar a implementação de políticas e ações divergentes dos princípios liberais, que é o dominante na equipe.

Se o governo seguir uma cartilha liberal no sentido estrito poderemos ter um agravamento da crise na sua dimensão social. Nosso país possui uma grande desigualdade social o que significa que há um grande contingente de pobres e miseráveis que precisam de auxílio nos momentos difíceis. Muitas famílias já estão passando fome e as ações entre amigos, de entidades de apoio e assistência social e mesmo as prefeituras buscam amenizar a situação com a distribuição de cestas básicas.

Porém a demora dos governos em tomar medidas econômicas como forma de amenizar a crise econômica pode agravar este cenário. Digo demora porque o que foi feito até o momento ainda se apresenta como pouco diante do quadro que está se desenhando para o futuro próximo. Não há a negação de que o governo já esteja agindo. Só há uma análise de que é preciso muito mais.

O setor público terá que ter um papel maior na economia para combater a crise e isto é conflitante com os princípios liberais da equipe econômica. Isto significa que o governo terá que dispender de mais recursos, o que aumentará o rombo nas contas públicas. Muitas coisas podem ser feitas pelo setor público para amenizar os efeitos da crise econômica, porém todas elas têm os seus custos.

É certo que a meta de resultado primário, que já era de déficit, não será cumprida. Com certeza o déficit será o quádruplo ou o quíntuplo do inicialmente projetado. O coronavírus já causou um desequilíbrio maior nas contas públicas e ainda terá mais efeitos negativos. Isto nas economias que se disporem a proteger os seus cidadãos, principalmente aqueles que se encontram em risco social.

O governo brasileiro está agindo, mas é preciso muito mais. O desajuste social que restará trará efeitos que serão sentidos por anos com o maior empobrecimento da população, que poderá causar vulnerabilidade por doenças que antes já estavam erradicadas de algumas comunidades, e diminuirá a capacidade produtiva da economia. O momento de agir é agora. O governo não pode demorar mais.

domingo, 12 de abril de 2020

Analisando os discursos


Os efeitos sociais e econômicos da pandemia do coronavírus são difíceis de serem previstos. Tudo vai depender das ações efetivas no combate ao crescimento dos casos de infecções e, principalmente, na eficiência de se evitar muitos óbitos. Para este enfrentamento a alternativa pregada no mundo todo é o isolamento social.

Se contrapondo ao isolamento social está a necessidade de se manter a atividade econômica para minimizar os efeitos recessivos nas economias mundiais. Cada vez mais, os eventos conduzem para um estado de economia de guerra.

Há muitas divergências de opiniões acerca da efetividade e eficiência dos governos na implementação de políticas públicas para amenizar o quadro econômico que se desenha. As economias do mundo irão crescer menos (algumas irão encolher) e com isto haverá um forte impacto sobre o emprego e a renda. Com efeito, haverá um aumento da pobreza e um aprofundamento da miséria em todos os países.

Mas a prioridade dos países deve estar focada na preservação de vidas. Porém, isto somente será possível se os governos estiverem aptos e dispostos a “colocarem as mãos nos bolsos” aportando dinheiro novo nestas ações, além, é claro, de redirecionar os recursos existentes para as ações prioritárias.

No caso brasileiro estamos vivenciando um período de forte polarização política tendo de um lado o Presidente Bolsonaro e um conjunto muito grande de seguidores e apoiadores e de outro os oposicionistas que foram, na sua maioria, preteridos no último pleito eleitoral. Entretanto, muitos que tentam efetuar uma análise mais crítica da realidade sem paixões, acabam sendo rotulados como adversários por ambos os lados.

O que as pessoas devem aprender a efetuar, mesmo que de forma simplista, é uma análise responsável do discurso das pessoas. O estudo da análise do discurso é importante para que as pessoas consigam compreender as diferentes práticas discursivas da sociedade. Desta forma, o analista tem que compreender o que se entende sobre o discurso, como ele é constituído, quem o emprega e o momento em que ele é efetivado. Em outras palavras, tem que se analisar, também, o sujeito do discurso, o ambiente e o momento, uma vez que agrega posição ideológica e se apresenta no dia a dia das estruturas sociais.

Pois bem, quando afirmamos que os governos deverão se empenhar para amenizar os efeitos da pandemia sobre a economia, é fato. Não cabem muitos questionamentos. Porém, a forma com que cada governo decide atuar, isto já dependerá do modelo político e econômico de cada país, além da linha ideológica dos agentes que detém o mando político neste momento.

Neste ponto identificamos diversos sinais trocados nas falas dos nossos agentes políticos, o que contribui para o acirramento dos ânimos dos extremos e a pressão sobre aqueles que tentam efetuar uma análise mais equilibrada do cenário posto.

A posição oficial do governo brasileiro é de que a economia não irá crescer neste ano. Já a mediana dos analistas do mercado financeiro aponta que haverá recessão, com a economia encolhendo 1,2%. Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, aponta para um recuo de 4% se o isolamento for além de julho. Também temos que considerar que os anúncios de apoio do governo são para um escopo temporal de três meses.

Pois bem, se considerarmos estes falantes é certo que o governo “aposta” que os efeitos da pandemia irão se estender até o mês de julho para depois começar a retomada. Porém, já temos a certeza de que os resultados econômicos serão avassaladores. Por conta disto precisamos de mais governo na economia para fazer o enfrentamento desta crise.

domingo, 5 de abril de 2020

Uma nova conjuntura social

A crise econômica que se avizinha por conta dos efeitos da pandemia da Covid-19 (Coronavírus) ainda não é possível de ser dimensionada no Brasil e muito menos no mundo. Para além das questões que envolvem estatísticas de contaminação e de óbitos sabemos que os efeitos econômicos também serão extremamente danosos para a economia mundial.

Por conta disto as economias pelo mundo afora anunciam e implementam medidas para amenizar os efeitos de uma das maiores crises sanitárias da história da humanidade sobre as suas respectivas economias. No Brasil também está ocorrendo estes anúncios. De forma tardia, mas está. O governo federal, através de sua equipe econômica demorou um pouco para apresentar as medidas, mas as apresentaram.

A impressão que dava era de que o governo estava relutante em apresentar medidas mais progressistas, que implicassem em renúncia de receita ou de aumento de gastos. Porém, não é o momento de pensar em economizar ou de buscar atingir metas fiscais. É momento de garantir, primeiro, a manutenção de vidas e depois se avalia as alternativas para amenizar os danos causados nas economias.

A onda liberal que tomou conta de muitas economias no mundo não consegue lidar com estas questões de forma mais natural, afinal de contas os liberais têm como modelo o individualismo sendo prioritário frente ao coletivo. De forma surpreendente nos vemos com economias tidas como liberais agindo de forma intervencionista e tomando medidas consideradas como keynesianas.

Estas medidas têm sua origem nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes, que defendia a ação do estado na economia com o objetivo de atingir o pleno emprego. Suas ideias foram desenvolvidas a partir da análise dos efeitos da “Grande Depressão”, também conhecida como “Crise de 1929”.

Práticas rechaçadas pelos liberais sempre foram utilizadas e surgem, novamente, como alternativas eficientes para o combate de crises econômicas. Isto aconteceu nos Estados Unidos, um dos berços do liberalismo, durante o governo Obama para enfrentar a crise financeira mundial de 2008 e está sendo utilizada pelo governo Trump para enfrentar a nova crise.

O governo brasileiro acordou do sono profundo e admitiu que é necessário tomar medidas econômicas mais robustas. Por conta disto, anunciou algumas medidas que foram bem recebidas pelos analistas e as quais estão sendo indicadas como alternativas factíveis para amenizar o aumento exponencial do desemprego no país.

O desemprego será o maior efeito da crise da Covid-19. Todas as economias terão impactos sociais consideráveis por conta do aumento do desemprego global que, por sua vez, será gerado pela redução do nível de atividade econômica. Esta nova crise aumentará o tamanho da pobreza e da miséria e dependerá das ações dos governos para ser combatida e revertida nos próximos anos.

Somente no Brasil a expectativa é de que cerca de 3 milhões de brasileiros percam seus empregos. Estes novos desempregados se somarão aos 12 milhões existentes, gerando um volume de desempregados superior ao do primeiro trimestre do ano de 2017. Também poderá ocorrer um aumento significativo das pessoas subocupadas por insuficiências de horas trabalhadas, que atualmente totalizam 6,4 milhões de pessoas.

Não é hora de os governos ficarem olhando para os próprios bolsos para economizarem moedas. É o momento de se tomarem medidas para, primeiramente, preservar vidas, e num segundo momento para garantir um mínimo de dignidade para as pessoas através da garantia de emprego e renda. É o momento de se socializar o Estado e de se estatizar a sociedade.  Assim, a onda liberal deverá se amoldar à nova conjuntura social.

domingo, 29 de março de 2020

Falsa dicotomia


Nosso país está convulsionando. Muitas pessoas podem dizer que isto é comum no Brasil, só que as coisas estão tomando rumos extremamente graves que pode potencializar um aumento significativo de mortes. É claro que a temática abordada é a pandemia do Covid-19 e as estratégias brasileiras para o seu enfrentamento.

Muitos países também estão passando pelo mesmo problema brasileiro e alguns já passaram. Em todos os casos ocorreram grande quantidade de infectados e muitos óbitos. Agora qualificar se a quantidade de óbitos foi alta ou baixa, já é uma questão difícil de avaliar. Estatisticamente falando a letalidade do vírus pode até ser considerada baixa, porém, humanamente falando não podemos aceitar sequer uma morte.

O grande motivo da convulsão citada é justamente o embate travado entre parcela da população (incluindo parcela de nossos agentes políticos) que prega o isolamento social como medida eficaz para amenizar os episódios de contágio e, consequentemente, de óbitos e outra parcela que está preocupada com os efeitos econômicos que o isolamento ocasionará na economia.

As alegações de ambos os lados são factíveis e aceitáveis, porém não podemos colocar a situação como sendo uma dicotomia, onde se colocam duas posições, ações ou eventos como sendo antagônicas. Nesta situação não se tem um antagonismo, mas ações complementares e dependentes.

Diversas manifestações com carreatas e buzinaços ocorreram nesta semana para pressionar prefeitos para liberarem a abertura do comércio em suas respectivas cidades. As alegações são coerentes e devem ser consideradas, poderá gerar desemprego e crise com a falência de muitas empresas de micros e pequenos portes. Na realidade, já está ocorrendo desemprego.

Os impactos na economia já começaram independente do fechamento (ou não) do comércio em algumas cidades. O próprio governo federal já revisou a expectativa de crescimento da economia, que na semana anterior era de 2,1% para o ano de 2020, para 0,02% após o início da pandemia no país. Portanto, é claro que haverá aumento do desemprego.

Agora, com o fechamento do comércio por algumas poucas semanas este problema irá se agravar, sim. Haverá empresas que demitirão funcionários porque não irão conseguir manter os seus custos fixos e os salários. Muitos empresários correrão risco de ter que encerrar atividades.

Agora indicar que o isolamento social não é necessário é um erro que custará muitas vidas. Não podemos aceitar e nos conformar com a afirmação do Presidente de que “infelizmente algumas mortes terão. Paciência”. Isto poderia ser considerado criminoso.

O isolamento social serve, também, para reduzir a chamada “curva” do coronavírus. O objetivo disto, num primeiro momento é diminuir a velocidade de crescimento do contágio para evitar sobrecarga no sistema de saúde. Se o sistema de saúde colapsar, daí sim ocorrerá um volume muito maior de contaminação e óbitos e os impactos sobre a economia serão ainda mais devastadores.

O que está demorando acontecer no Brasil é o governo federal, principalmente o Presidente, assumir o protagonismo positivo de enfrentamento a crise e anunciar medidas efetivas para auxiliar a parte econômica.

Quem tem que dar solução para a crise econômica com medidas que garantam renda para as pessoas comprarem alimentos é o governo. Também tem que ter medidas de socorro e apoio aos micros, pequenos e médios empresários para manterem seus empreendimentos. O governo não pode permitir que uma quebradeira de empresas ocorra no país. As ações divulgadas até o presente momento são superficiais e precisam ser potencializadas.

domingo, 22 de março de 2020

Economia de guerra


Nesta semana, em conversa com uma amiga sobre a conjuntura econômica e social atual ela usou o termo “economia de guerra” para definir o que podemos passar nos próximos meses. Muitas pessoas podem até achar exagero, mas não podemos descartar tal possibilidade dada a inércia de nossos agentes políticos em assumir o protagonismo no combate à pandemia do coronavírus.

Economia de guerra trata-se de um fundamento econômico que ocorre quando um país ajusta todas as cadeias produtivas para produzir mercadorias e equipamentos voltados para um confronto armado. Há diversos relatos dos custos financeiros de uma guerra e suas consequências para as populações dos países envolvidos e alguns deles estudamos nos livros de história.

O que temos pela frente não é uma guerra no sentido literal, mas as consequências econômicas e sociais poderão ser similares dependendo das ações de nossos governantes. Podemos aprender algumas coisas com as experiências recentes dos chineses e dos italianos, porém a estrutura econômica e social de nosso país é diferente.

Os agentes políticos parecem estar totalmente “perdidos” sobre o que fazer para o enfrentamento da situação posta e algumas soluções começam a ser “copiadas” (no bom sentido) do que ocorreu em outras localidades do mundo.

O termo “economia de guerra” acredito que não se aplique no caso brasileiro em seu sentido estrito, porém as decisões que estão sendo tomadas pelos nossos agentes políticos estão contribuindo para gerar uma conjuntura calamitosa para nossa economia.

É fato que os governos, em especial o governo federal, tem que tomar medidas drásticas para o combate a esta pandemia só que nossos governantes parecem “perdidos”, sem saber o que fazer. O presidente Bolsonaro, que deveria assumir o protagonismo e apresentar medidas efetivas, não o faz. Os governadores, alguns mais reticentes, tomam medidas que ainda não é possível medir suas eficácias. E os prefeitos apresentam medidas proporcionais, sendo que a maioria com efeitos cosméticos.

Recentemente a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que há a possibilidade de cerca de 70% da população alemã ser contaminada com o novo vírus. E há uma explicação científica para isto. A afirmação da dirigente é sóbria e todos sabemos que os governos devem tomar medidas para proteger os seus cidadãos.

Nesta linha o que o governo federal divulgou até o presente momento como medidas na área econômica ajuda a resolver alguns problemas pontuais, porém não estão anunciando “dinheiro novo” e sim antecipando execução orçamentária e fazendo alguns remanejamentos.

Estas medidas combinadas com as decisões de vários municípios de fechamento ou controle nos horários de funcionamento do comércio, setor de serviços e indústrias, com certeza ajudarão no combate à pandemia, porém gerarão uma nova onda de desemprego e o governo federal tem que se antecipar e tomar medidas para enfrentamento da crise econômica que se instalará após ou mesmo durante a crise do coronavírus.

Decisões como a de autorizar as empresas a reduzir em até 50% os salários dos funcionários geram pânico. É necessário que as pessoas mantenham o isolamento social para combater a propagação do vírus, porém muitas pessoas estão com receio de não trabalharem e não receberem os salários integrais. Já do lado dos empregadores, principalmente os micro e pequenos empresários, há a preocupação em como que pagarão os seus custos fixos de portas fechadas.

Este cenário de crise na saúde está gerando incertezas na área econômica que, com a letargia governamental em apresentar soluções que amenizem os danos e acalentem os cidadãos, irá gerar o agravamento da atual crise econômica.