domingo, 5 de abril de 2020

Uma nova conjuntura social

A crise econômica que se avizinha por conta dos efeitos da pandemia da Covid-19 (Coronavírus) ainda não é possível de ser dimensionada no Brasil e muito menos no mundo. Para além das questões que envolvem estatísticas de contaminação e de óbitos sabemos que os efeitos econômicos também serão extremamente danosos para a economia mundial.

Por conta disto as economias pelo mundo afora anunciam e implementam medidas para amenizar os efeitos de uma das maiores crises sanitárias da história da humanidade sobre as suas respectivas economias. No Brasil também está ocorrendo estes anúncios. De forma tardia, mas está. O governo federal, através de sua equipe econômica demorou um pouco para apresentar as medidas, mas as apresentaram.

A impressão que dava era de que o governo estava relutante em apresentar medidas mais progressistas, que implicassem em renúncia de receita ou de aumento de gastos. Porém, não é o momento de pensar em economizar ou de buscar atingir metas fiscais. É momento de garantir, primeiro, a manutenção de vidas e depois se avalia as alternativas para amenizar os danos causados nas economias.

A onda liberal que tomou conta de muitas economias no mundo não consegue lidar com estas questões de forma mais natural, afinal de contas os liberais têm como modelo o individualismo sendo prioritário frente ao coletivo. De forma surpreendente nos vemos com economias tidas como liberais agindo de forma intervencionista e tomando medidas consideradas como keynesianas.

Estas medidas têm sua origem nas ideias do economista inglês John Maynard Keynes, que defendia a ação do estado na economia com o objetivo de atingir o pleno emprego. Suas ideias foram desenvolvidas a partir da análise dos efeitos da “Grande Depressão”, também conhecida como “Crise de 1929”.

Práticas rechaçadas pelos liberais sempre foram utilizadas e surgem, novamente, como alternativas eficientes para o combate de crises econômicas. Isto aconteceu nos Estados Unidos, um dos berços do liberalismo, durante o governo Obama para enfrentar a crise financeira mundial de 2008 e está sendo utilizada pelo governo Trump para enfrentar a nova crise.

O governo brasileiro acordou do sono profundo e admitiu que é necessário tomar medidas econômicas mais robustas. Por conta disto, anunciou algumas medidas que foram bem recebidas pelos analistas e as quais estão sendo indicadas como alternativas factíveis para amenizar o aumento exponencial do desemprego no país.

O desemprego será o maior efeito da crise da Covid-19. Todas as economias terão impactos sociais consideráveis por conta do aumento do desemprego global que, por sua vez, será gerado pela redução do nível de atividade econômica. Esta nova crise aumentará o tamanho da pobreza e da miséria e dependerá das ações dos governos para ser combatida e revertida nos próximos anos.

Somente no Brasil a expectativa é de que cerca de 3 milhões de brasileiros percam seus empregos. Estes novos desempregados se somarão aos 12 milhões existentes, gerando um volume de desempregados superior ao do primeiro trimestre do ano de 2017. Também poderá ocorrer um aumento significativo das pessoas subocupadas por insuficiências de horas trabalhadas, que atualmente totalizam 6,4 milhões de pessoas.

Não é hora de os governos ficarem olhando para os próprios bolsos para economizarem moedas. É o momento de se tomarem medidas para, primeiramente, preservar vidas, e num segundo momento para garantir um mínimo de dignidade para as pessoas através da garantia de emprego e renda. É o momento de se socializar o Estado e de se estatizar a sociedade.  Assim, a onda liberal deverá se amoldar à nova conjuntura social.

domingo, 29 de março de 2020

Falsa dicotomia


Nosso país está convulsionando. Muitas pessoas podem dizer que isto é comum no Brasil, só que as coisas estão tomando rumos extremamente graves que pode potencializar um aumento significativo de mortes. É claro que a temática abordada é a pandemia do Covid-19 e as estratégias brasileiras para o seu enfrentamento.

Muitos países também estão passando pelo mesmo problema brasileiro e alguns já passaram. Em todos os casos ocorreram grande quantidade de infectados e muitos óbitos. Agora qualificar se a quantidade de óbitos foi alta ou baixa, já é uma questão difícil de avaliar. Estatisticamente falando a letalidade do vírus pode até ser considerada baixa, porém, humanamente falando não podemos aceitar sequer uma morte.

O grande motivo da convulsão citada é justamente o embate travado entre parcela da população (incluindo parcela de nossos agentes políticos) que prega o isolamento social como medida eficaz para amenizar os episódios de contágio e, consequentemente, de óbitos e outra parcela que está preocupada com os efeitos econômicos que o isolamento ocasionará na economia.

As alegações de ambos os lados são factíveis e aceitáveis, porém não podemos colocar a situação como sendo uma dicotomia, onde se colocam duas posições, ações ou eventos como sendo antagônicas. Nesta situação não se tem um antagonismo, mas ações complementares e dependentes.

Diversas manifestações com carreatas e buzinaços ocorreram nesta semana para pressionar prefeitos para liberarem a abertura do comércio em suas respectivas cidades. As alegações são coerentes e devem ser consideradas, poderá gerar desemprego e crise com a falência de muitas empresas de micros e pequenos portes. Na realidade, já está ocorrendo desemprego.

Os impactos na economia já começaram independente do fechamento (ou não) do comércio em algumas cidades. O próprio governo federal já revisou a expectativa de crescimento da economia, que na semana anterior era de 2,1% para o ano de 2020, para 0,02% após o início da pandemia no país. Portanto, é claro que haverá aumento do desemprego.

Agora, com o fechamento do comércio por algumas poucas semanas este problema irá se agravar, sim. Haverá empresas que demitirão funcionários porque não irão conseguir manter os seus custos fixos e os salários. Muitos empresários correrão risco de ter que encerrar atividades.

Agora indicar que o isolamento social não é necessário é um erro que custará muitas vidas. Não podemos aceitar e nos conformar com a afirmação do Presidente de que “infelizmente algumas mortes terão. Paciência”. Isto poderia ser considerado criminoso.

O isolamento social serve, também, para reduzir a chamada “curva” do coronavírus. O objetivo disto, num primeiro momento é diminuir a velocidade de crescimento do contágio para evitar sobrecarga no sistema de saúde. Se o sistema de saúde colapsar, daí sim ocorrerá um volume muito maior de contaminação e óbitos e os impactos sobre a economia serão ainda mais devastadores.

O que está demorando acontecer no Brasil é o governo federal, principalmente o Presidente, assumir o protagonismo positivo de enfrentamento a crise e anunciar medidas efetivas para auxiliar a parte econômica.

Quem tem que dar solução para a crise econômica com medidas que garantam renda para as pessoas comprarem alimentos é o governo. Também tem que ter medidas de socorro e apoio aos micros, pequenos e médios empresários para manterem seus empreendimentos. O governo não pode permitir que uma quebradeira de empresas ocorra no país. As ações divulgadas até o presente momento são superficiais e precisam ser potencializadas.

domingo, 22 de março de 2020

Economia de guerra


Nesta semana, em conversa com uma amiga sobre a conjuntura econômica e social atual ela usou o termo “economia de guerra” para definir o que podemos passar nos próximos meses. Muitas pessoas podem até achar exagero, mas não podemos descartar tal possibilidade dada a inércia de nossos agentes políticos em assumir o protagonismo no combate à pandemia do coronavírus.

Economia de guerra trata-se de um fundamento econômico que ocorre quando um país ajusta todas as cadeias produtivas para produzir mercadorias e equipamentos voltados para um confronto armado. Há diversos relatos dos custos financeiros de uma guerra e suas consequências para as populações dos países envolvidos e alguns deles estudamos nos livros de história.

O que temos pela frente não é uma guerra no sentido literal, mas as consequências econômicas e sociais poderão ser similares dependendo das ações de nossos governantes. Podemos aprender algumas coisas com as experiências recentes dos chineses e dos italianos, porém a estrutura econômica e social de nosso país é diferente.

Os agentes políticos parecem estar totalmente “perdidos” sobre o que fazer para o enfrentamento da situação posta e algumas soluções começam a ser “copiadas” (no bom sentido) do que ocorreu em outras localidades do mundo.

O termo “economia de guerra” acredito que não se aplique no caso brasileiro em seu sentido estrito, porém as decisões que estão sendo tomadas pelos nossos agentes políticos estão contribuindo para gerar uma conjuntura calamitosa para nossa economia.

É fato que os governos, em especial o governo federal, tem que tomar medidas drásticas para o combate a esta pandemia só que nossos governantes parecem “perdidos”, sem saber o que fazer. O presidente Bolsonaro, que deveria assumir o protagonismo e apresentar medidas efetivas, não o faz. Os governadores, alguns mais reticentes, tomam medidas que ainda não é possível medir suas eficácias. E os prefeitos apresentam medidas proporcionais, sendo que a maioria com efeitos cosméticos.

Recentemente a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que há a possibilidade de cerca de 70% da população alemã ser contaminada com o novo vírus. E há uma explicação científica para isto. A afirmação da dirigente é sóbria e todos sabemos que os governos devem tomar medidas para proteger os seus cidadãos.

Nesta linha o que o governo federal divulgou até o presente momento como medidas na área econômica ajuda a resolver alguns problemas pontuais, porém não estão anunciando “dinheiro novo” e sim antecipando execução orçamentária e fazendo alguns remanejamentos.

Estas medidas combinadas com as decisões de vários municípios de fechamento ou controle nos horários de funcionamento do comércio, setor de serviços e indústrias, com certeza ajudarão no combate à pandemia, porém gerarão uma nova onda de desemprego e o governo federal tem que se antecipar e tomar medidas para enfrentamento da crise econômica que se instalará após ou mesmo durante a crise do coronavírus.

Decisões como a de autorizar as empresas a reduzir em até 50% os salários dos funcionários geram pânico. É necessário que as pessoas mantenham o isolamento social para combater a propagação do vírus, porém muitas pessoas estão com receio de não trabalharem e não receberem os salários integrais. Já do lado dos empregadores, principalmente os micro e pequenos empresários, há a preocupação em como que pagarão os seus custos fixos de portas fechadas.

Este cenário de crise na saúde está gerando incertezas na área econômica que, com a letargia governamental em apresentar soluções que amenizem os danos e acalentem os cidadãos, irá gerar o agravamento da atual crise econômica.

domingo, 15 de março de 2020

Todo ano é sempre assim

Em nosso país deveria ter eleições municipais anualmente. Para presidente da República, deputados, senadores e governadores poderiam continuar sendo a cada quatro anos. A ironia na afirmação se dá pelo fato de que sempre em ano de eleições municipais milhares de cidades brasileiras “fervem em obras”.

Pelas minhas andanças motivadas pelo exercício de meu ofício me deparo com a aplicação do ciclo político tradicional de forma explícita. No estudo das teorias dos ciclos políticos muitos pesquisadores analisaram os comportamentos dos agentes políticos. Estes estudos datam da primeira metade do século passado e são válidos até os dias atuais.

Em 1957, o economista William Nordhaus, apresentou o modelo tradicional de ciclo político e apontou que este possui algumas premissas: os políticos intervêm em questões econômicas para maximizar votos; os resultados eleitorais dependem dos resultados econômicos; antes das eleições os políticos manipulam as políticas públicas para promover a sensação de crescimento econômico e redução do desemprego; e os políticos acreditam que os eleitores possuem um comportamento eleitoral retrospectivo e míope.

Estas premissas são válidas até os nossos dias, sim. Nas andanças citadas, e tenho certeza que muitas pessoas também se identificam com o aqui descrito, se tornou comum se deparar com muitas obras nos municípios por onde passei. É o ciclo político tradicional, onde os políticos começam os seus mandatos realizando poucas ações e criticando os seus antecessores e, à medida que vão se aproximando as eleições, o dinheiro que antes não existia aparece e as obras começam a “pipocar” em todos os cantos.

É uma verdadeira “febre”. Tudo de bom acontece em ano eleitoral. Se aparecer um buraco no asfalto, no dia seguinte é consertado. Não tem lâmpadas queimadas nos postas, as praças e parques ficam devidamente roçados e os seus bancos limpos e pintados.

Na saúde surgem as consultas e procedimentos especializados, coisas que não aconteciam nos primeiros anos do mandato, e há distribuição de medicamentos.

Na educação tem distribuição de materiais e uniformes escolares, ovos de chocolate na Páscoa, passeios divertidos e a merenda se torna farta e deliciosa.

Estes fatos elencados, que não são fictícios, tem relação com a teoria de Nordhaus. É o ciclo político tradicional tipificado como oportunista, onde os agentes políticos manipulam as políticas públicas, principalmente as econômicas, fazendo ter superávits consecutivos para potencializar gastos na véspera das eleições e conseguir a sua reeleição ou a eleição de seus apoiados e apaniguados.

Muita gente poderá torcer o nariz com estas afirmações e tecer muitas críticas, mas é isto que acontece. É fácil efetuar a verificação empírica. Basta observar com atenção o que aconteceu nos últimos três anos e o que está acontecendo, ou sendo prometido que será feito, neste ano. No ano das eleições.

E, de forma explícita, os políticos que se encontram no poder apostam na amnésia de memória recente e na miopia política de parte dos eleitores e conseguem convencê-los de que eles são bons gestores e que não convém promover mudanças, elegendo pessoas novas que são taxadas de inexperientes.

Parafraseando Chico Buarque, todo ano eleitoral é sempre assim, eles fazem tudo sempre igual. Sacodem os eleitores com obras, ações e discursos que tiram sempre o mesmo sorriso dos eleitores. Eles apostam que os eleitores não são racionais e que não analisam a trajetória completa do político. E é assim mesmo que acontece e daí começa um novo ciclo. Mas já é hora dos eleitores romperem com este modelo e começarem a agir com mais racionalidade na hora de suas escolhas políticas.

domingo, 8 de março de 2020

Para além do “gado”

Saiu o resultado do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, para o ano de 2019. Como não poderia ser diferente, no momento político atual, as redes sociais já “pipocaram” de críticas e de elogios ao desempenho apresentado. O PIB de 2019 teve uma expansão de 1,1% em relação ao ano de 2018.

O “gado” governista bolsonarista está comemorando como se a economia estivesse em franco crescimento e a situação econômica melhorando. Indo “de vento em popa”. Já o “gado” oposicionista esquerdista critica alegando que é o pior resultado dos últimos três anos e que a economia está indo “de vento em proa”.

Para quem não está habituado em ler ou ouvir o termo “gado” quando se trata de política, cabe esclarece que este termo é utilizado quando uma pessoa ou grupo de pessoas são facilmente enganados, conduzidos ou persuadidos para defender certo pensamento, pessoa ou ideia.

Atualmente estamos vivenciando um período onde algumas pessoas efetuam a defesa de seus “ídolos” políticos sem nenhuma avaliação racional. Muitas destas pessoas se colocam como intransigentes e acabam por repetir comportamento típico de manadas. Antigamente era muito comum usar a expressão “Maria vai com as outras” para qualificar as pessoas que seguem a opinião dos outros e que não conseguem definir qual é a sua opinião, a sua posição sobre certo assunto.

Realmente o crescimento do PIB de 2019 foi muito tímido, principalmente se considerarmos o tamanho de nossa economia e que nos últimos 19 anos tivemos desempenhos melhores em 13 deles.

Por outro lado temos que considerar que nossa economia enfrentou uma crise financeira mundial no ano de 2008 que, combinada com uma crise fiscal ocasionada pela irresponsabilidade de governos recentes, levaram nossa economia para uma recessão que “encolheu” nosso PIB por dois anos consecutivos.

Temos que buscar o equilíbrio nestas análises e encontrar os pontos fortes e fracos do desempenho recente de nossa economia e, principalmente, as decisões de políticas econômicas que não foram eficientes para garantir uma retomada vigorosa.

Outra questão importante para ser analisada, avaliada e submetida a críticas é o comportamento de nossos agentes políticos diante do quadro recente de empobrecimento de boa parcela da população brasileira. Mas o que acompanhamos nas redes sociais é um grandioso embate de bitolados defensores de posições antagônicas extremistas. Isto em nada vai contribuir para melhoras no resultado da economia. Pelo contrário, este cenário somente alerta os investidores nacionais e internacionais sobre as incertezas futuras para o nosso país. E digo incertezas porque num ambiente de crise política e social é isto que resta. E como já sabemos, uma crise política pode se transformar numa crise econômica que, no caso apresentado, pode trazer danos significativos para o processo de retomada do crescimento.

A abordagem do tema tem que ser feita para além de discutir se é o PIB público ou privado que está crescendo mais, se a década vai ou não ser “perdida”, se a busca do equilíbrio fiscal “trava” ou não a economia ou se a culpa é dos argentinos. Temos que abordar o assunto com a preocupação de buscar distribuição da riqueza gerada, mesmo que seja pouca. Temos que nos preocupar se a pobreza e a miséria estão diminuindo.

O PIB cresceu, que bom. Cresceu aquém do necessário, que pena. Mas o que precisamos fazer para que nossa economia cresça num ritmo ideal? O que nossos agentes políticos precisam fazer? Podemos não saber estas respostas, mas sabemos que temos que nos unir em torno de um projeto de nação forte e unida e romper com os extremismos dos dias atuais.

domingo, 1 de março de 2020

Persuasão moral


A economia está intimamente ligada à política. Quando os fundamentos da economia não estão bons os agentes políticos devem buscar a aplicação de ações visando a sua estabilidade ou recuperação. Caso isto não ocorra pode ocorrer uma crise econômica e o seu aprofundamento poderá redundar numa crise política.

O caminho inverso também pode ocorrer, ou seja, quando a sociedade está vivenciando uma crise política, que pode ser originada por diversos motivos, dentre eles a falta de credibilidade ou a inconsequência dos gestores públicos, se não for tratada adequadamente pode resultar numa crise econômica.

Todos os gestores públicos estão sujeitos a serem os causadores destes eventos que terão os seus efeitos proporcionais às responsabilidades e capacidades de atuação na economia. Prefeitos e governadores também estão sujeitos a estas situações, ressalvadas as devidas proporções. Porém são as ações do executivo e mesmo dos legislativos nacionais que podem causar as grandes perturbações na economia.

Quando a economia está necessitando de ajustes as autoridades econômicas se utilizam de políticas econômicas para administrar os seus fundamentos. São cinco grandes políticas econômicas: a fiscal, a monetária, a comercial, a cambial e a de rendas.

Todas as políticas econômicas podem ajudar a atingir os mesmos objetivos que são: estabilidade de preços, alto nível de emprego, distribuição de renda, crescimento econômico sustentável e equilíbrio externo.

E, finalmente, para buscar atingir os objetivos as políticas econômicas são escolhidas segundo critérios técnicos, científicos e, muitas vezes, ideológicos. A implementação das políticas econômicas selecionadas se dá através das ações das ferramentas específicas para cada política.

Mas as coisas não são simples e nem objetivas. A escolha do instrumento e da ferramenta de política econômica não segue regras predefinidas e as autoridades econômicas pode incorrer em erros nas escolhas. Além disto, há o risco do erro na dosimetria de utilização das ferramentas. Desta forma, uma ação que inicialmente seria para melhorar um fundamento da economia, a inflação por exemplo, pode ter efeito contrário, ou seja, ao invés de melhorar o problema pode ser agravado.

Portanto, as decisões de políticas econômicas devem ser muito bem planejadas e implementadas. Erros e ações inconsequentes podem trazer grandes prejuízos conjunturais que, se não tratados, alteram a estrutura econômica e social.

Pois bem, uma das ferramentas de política econômica pouco comentadas é a persuasão moral, que nada mais é do que uma estratégia de comunicação que busca convencer as pessoas a praticarem determinado comportamento, neste caso econômico.

No final dos anos de 1980 o Ministro da Fazenda, Dílson Funaro, tentou conclamar os brasileiros a pouparem mais e gastarem menos como uma forma de combate à inflação. No final do ano de 2008, o Presidente Lula fez um apelo para que a população brasileira continuasse consumindo para promover o crescimento da economia a partir do aumento do consumo das famílias em contraponto à crise financeira que estava assolado o mundo.

Estes exemplos históricos servem para refletirmos e compreendermos que o comportamento e as falas de ministros e, em especial, do Presidente da República possuem grande peso nas decisões dos agentes econômicos. Com base nisto os empresários decidem se irão investir mais ou menos, as empresas decidem se irão contratar mais funcionários ou se irão demitir, os consumidores decidem se irão consumir ou poupar. Portanto, nossos agentes políticos devem refletir muito acerca de suas ações e falas. Disto pode depender a tranquilidade e a paz de uma nação.

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Mantendo o equilíbrio


Viver no Brasil atual é uma coisa “sui generis”. Tecer comentários e fazer análises é mais ainda, podendo até ser perigoso. Vivemos um momento de contrastes, onde se tem dois grandes grupos que dividem as opiniões sobre praticamente tudo. E nestes grupos os extremos se destacam pela ferocidade e voracidade. Nosso país já vivenciou esta situação em outros momentos da história. Só que as coisas mudaram e agora a comunicação ocorre em tempo real.

Basta alguém arriscar fazer um comentário ou emitir sua opinião sobre um determinado assunto que as reações já se iniciam e o embate pode até extrapolar todos os limites toleráveis de urbanidade. Vivemos momentos difíceis para as pessoas que tentam utilizar a doutrina do meio-termo, do equilíbrio.

Se for comentado que a previsão de crescimento da economia de 2,23%, para a situação atual e recente do país, é pouco os governistas de extrema direita irão criticar e afirmar que pelo menos está crescendo, que a situação estava muito pior e que as coisas irão melhorar porque o governo está fazendo tudo certo. Já pelo outro lado, os opositores de extrema esquerda irão criticar e afirmar que a taxa de crescimento não só é pouca, que é péssima, e que o governo está destruindo todas as políticas sociais e a população brasileira está empobrecendo.

Oras bolas, um crescimento de 2,23% para a economia brasileira é pouco, sim. Embora estejamos saindo de um período de recessão a retomada está muito lenta e a situação de muitas famílias brasileiras pioraram nos últimos dez anos e, se manter este ritmo de retomada, demorará muito para voltar aos níveis anteriores à crise recente.

Não vejo motivos para travar uma guerra só porque foi comentado que a taxa de crescimento da economia prevista é baixa. É baixa, sim, tanto para os conservadores quanto para os esquerdistas. Não precisamos guerrear por conta disto, há de se utilizar o bom senso, o equilíbrio e as regras de urbanidade e cordialidade.

Temos uma inflação que pode ser considerada baixa? Sim. Mas quais as suas causas? O excelente desempenho do governo federal com suas políticas de ajustes? Ou o empobrecimento da população brasileira que, endividada e desempregada, não tem renda suficiente para demandar os bens e serviços e, com isto, a pressão sobre os preços diminui?

Como diria um professor de economia com o qual tive aulas: “isto é uma questão de semântica”. Realmente é uma questão de interpretação. Só que atualmente as interpretações estão vindo carregadas de tendências e ideologias extremistas.

Oras bolas, muitos prefeitos e vereadores ficaram os últimos anos criticando e reclamando dos seus antecessores, afirmando que eles não fizeram nada, que endividaram as prefeituras e que as coisas estavam difíceis. Agora, em ano eleitoral, estes políticos esqueceram as ladainhas e criaram novos mantras afirmando que as coisas estão boas e que irão melhorar ainda mais.

Temos que ter muita perspicácia para conseguir separar o joio do trigo em matéria de política. O que precisamos é que as pessoas sejam mais tolerantes e fraternas. Que elas aceitem e respeitem as opiniões dos outros. E que busquemos, todos juntos, soluções para a melhoria da qualidade de vida da sociedade em que vivemos.

Devemos seguir os ensinamentos de Dédalo, da mitologia cretense, que orientou seu filho a voar, com as asas que construiu para fugir das maldades do rei Minos, pelo caminho do meio. Não podemos fazer como seu filho, Ícaro, que, desobedecendo o pai, morreu. As pessoas devem continuar emitindo suas opiniões e enfrentando todos os extremistas, pois a solução mais sensata ainda é manter o equilíbrio nos momentos de turbulência.