sábado, 12 de setembro de 2020

Só não enxerga quem não quer

Os preços dos alimentos estão subindo muito e encarecendo o custo de vida dos brasileiros. Os itens componentes da cesta básica não param de sofrer aumentos e o presidente Bolsonaro, como resposta, pede “patriotismo” para as redes de supermercados para evitar a alta dos preços.

Se não bastasse isto, muitos agentes políticos em pré-campanha eleitoral buscam lançar mão de críticas acerca dos aumentos dos preços dos alimentos e também culpam os comerciantes. Que os preços dos alimentos estão subindo muito é óbvio, mas pôr a culpa nos comerciantes já é exagero.

Se considerarmos o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE, que mede a inflação para famílias com renda de 1 a 5 salários mínimos, constatamos que o grupo de alimentos e bebidas teve um aumento de preços de 4,59%, de janeiro a julho deste ano. No mesmo período o arroz subiu 15,62%, o feijão carioca subiu 20,28%, a batata inglesa teve alta acumulada de 25,44% e o açúcar cristal, 10,32%.

Basta uma pequena busca na internet ou mesmo acompanhar os noticiários econômicos que tanto o presidente quanto os oportunistas de plantão terão as informações corretas e saberão que a culpa não é dos comerciantes. Estes são intermediários e repassam seus custos e tentam manter uma taxa de lucro normal.

O setor de alimentos é muito competitivo e as possibilidades de lucros extraordinários são pouco comuns. Entenda-se como lucros extraordinários aqueles que estão acima da média e isto não é fácil de ocorrer em setores competitivos. Portanto, não se pode apontar o dedo para os comerciantes e acusá-los de serem os causadores do aumento do custo dos alimentos para a população. Tampouco, afirmar que o aumento dos custos dos alimentos é por causa do pagamento do auxílio emergencial.

A explicação para o aumento dos preços dos alimentos é técnica e as soluções passam por decisões de políticas públicas para a cesta básica ou mesmo por políticas econômicas para abrandar alguns fundamentos da economia.

Os preços elevados da soja estão causando o aumento de preços de seus derivados. A safra de 2019/2020 já foi toda comercializada, a de 2020/2021, que ainda não foi semeada, já está com uma metade vendida e já se falam em começar a comercializar a de 2021/2022. Os preços estão sendo pressionados pela falta do grão no mercado.

Os preços do arroz e feijão também estão aumentando. O primeiro por conta de a indústria de beneficiamento estar trabalhando com o produto já adquirido, aguardando preços melhores para voltar a comprar, e o segundo porque o mercado está entrando no vazio de oferta.

Além das questões de mercado interno e externo de cada produto temos que considerar que estes são commodities e seus preços são estabelecidos no mercado internacional. Com o dólar em alta os produtos primários brasileiros ficam baratos no exterior e as exportações se tornam mais interessantes do que vender no mercado interno. Por conta disto a indústria nacional tem que se submeter a pagar mais caro pela matéria prima, repassando os aumentos dos custos para frente. O mesmo está acontecendo com as carnes de frango e boi que, por sua vez, puxam o preço da carne suína.

Com a manutenção da cotação do dólar em alta as perspectivas de baixa dos preços dos alimentos são remotas. Não se trata de tentar persuadir os comerciantes a serem mais “patriotas”, mas sim de o governo buscar soluções para amenizar a desvalorização de nossa moeda. Já faz tempo que o câmbio está sendo o vilão do custo de vida dos brasileiros. Só não enxerga quem não quer.


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