quarta-feira, 22 de maio de 2024

Enchentes devastadoras

As enchentes no Rio Grande do Sul estão castigando o povo gaúcho, exigindo uma grande união entre o governo e a sociedade civil para colaborar no auxílio às pessoas. Além dos efeitos visivelmente perceptíveis, temos os impactos das enchentes na economia brasileira e global. Os efeitos econômicos já estão no radar do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que considera os impactos profundos e multifacetados, afetando significativamente a produção agrícola, bem como a oferta e os preços dos alimentos.

O estado é um dos principais produtores agrícolas do país e está enfrentando perdas em várias culturas essenciais. Destacamos os danos às plantações de soja, arroz, trigo, milho, além da produção de carne e laticínios. A soja, que representa uma grande parte da produção agrícola do estado, viu perdas significativas com cerca de 20% da produção ainda por ser colhida. A estimativa é que até 2,8 milhões de toneladas de soja possam ser perdidas, afetando tanto o mercado interno quanto o internacional, já que o Brasil é um dos maiores exportadores mundiais do grão.

O estado é responsável por mais de 70% da produção nacional de arroz, e as enchentes danificaram áreas de cultivo e infraestruturas de armazenamento, além de dificultar a logística de transporte. Analistas estimam que as perdas possam chegar a 1 milhão de toneladas, o que representa cerca de 14% da produção nacional projetada para 2023/24.

A redução na produção agrícola terá repercussões diretas na oferta de alimentos. A diminuição da disponibilidade de produtos como soja, arroz, milho e trigo inevitavelmente levará a aumentos nos preços desses produtos, gerando inflação. Esse aumento dos preços não se limitará ao mercado interno: os reflexos nos preços já podem ser sentidos através da alta nos preços internacionais da soja. A redução na produção de soja também afeta a produção de óleo de soja e biodiesel, pressionando ainda mais os preços dos combustíveis e alimentos derivados da soja. Além disso, o impacto na produção de milho pode afetar a oferta global de ração animal, influenciando os preços da carne em diversos mercados.

Do ponto de vista econômico, a expectativa mediana é de que ocorra uma recessão de 1% no PIB agropecuário por conta dos impactos das enchentes, mas os mais pessimistas apontam para uma queda de 3,5%. A produção reduzida e os problemas logísticos afetarão negativamente a economia brasileira como um todo, aumentando a inflação e reduzindo o crescimento econômico.

Além dos impactos diretos na produção e nos preços dos alimentos, as enchentes causaram severos danos à infraestrutura do estado, destruindo pontes, estradas e instalações de armazenamento e os custos de reconstrução serão vultuosos. Os esforços do governo federal para dar apoio financeiro às pessoas e na reconstrução de estradas, pontes e residências irão aumentar o déficit nas contas públicas, o que poderá forçar os juros a se manterem elevados por mais tempo.

Sem dúvidas, as enchentes no Rio Grande do Sul representam uma catástrofe humanitária e econômica de grandes proporções, com impactos que serão sentidos globalmente. Governos e indústrias precisam trabalhar em conjunto para mitigar os impactos imediatos e planejar a recuperação a longo prazo, garantindo a estabilidade da oferta de alimentos e a recuperação econômica. Trata-se de uma tarefa complexa, difícil e dispendiosa, que exigirá muita habilidade, planejamento e competência para ser realizada com eficiência. É um momento de união, e todos devem contribuir.


quarta-feira, 15 de maio de 2024

Economia em risco

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), a decisão de reduzir a taxa Selic para 10,5% foi marcada por uma divisão notável entre seus membros: 5 votos a favor de uma redução menor e 4 a favor de uma redução mais significativa. Essa divisão reflete não apenas diferentes visões econômicas, mas também a influência política que permeia o comitê. Os diretores indicados pelo governo Lula optaram por um corte maior, enquanto os remanescentes da gestão Bolsonaro preferiram um ajuste mais modesto. Este cenário traz à tona uma série de questões sobre a condução da política monetária e os rumos da economia brasileira.

A decisão do COPOM revela uma tentativa do executivo federal de reduzir os juros básicos, potencialmente por questões ideológicas, sem considerar os riscos inflacionários e o equilíbrio das contas públicas. A redução da taxa Selic, em teoria, visa estimular a economia ao baratear o crédito e incentivar o consumo e os investimentos. No entanto, em um contexto de pressão inflacionária, essa estratégia pode ser perigosa. A inflação, que já está acima do centro da meta estabelecida pelo Banco Central, pode se agravar, prejudicando o poder de compra da população e desestabilizando a economia.

Por outro lado, a redução dos juros pode aliviar a rolagem da dívida pública, que vem crescendo a um ritmo acelerado. Com a dívida líquida do setor público prevista para fechar o ano equivalente a 63,9% do PIB, e podendo atingir 68,0% ao final do mandato de Lula em 2026, a diminuição dos juros reduz o custo do serviço dessa dívida. Esse é um ponto positivo em um cenário onde a sustentabilidade fiscal é uma preocupação constante. Contudo, essa medida por si só não resolve os problemas estruturais das finanças públicas.

O Banco Central, apesar da divisão interna, reiterou seu compromisso com a meta de inflação de 3,0%. A autoridade monetária enfatizou que está disposta a tomar as medidas necessárias para alcançar essa meta, mesmo que a convergência seja difícil, lenta e custosa. Esse compromisso é crucial para manter a credibilidade da política monetária e ancorar as expectativas inflacionárias. Contudo, a persistente incerteza fiscal e a falta de compromisso com o equilíbrio das contas públicas por parte do governo e do legislativo complicam ainda mais essa tarefa.

Mas há também notícias positivas. A atividade econômica e o mercado de trabalho estão mais dinâmicos do que o esperado. A projeção de crescimento do PIB para 2024 é de 1,9%, com a mediana das expectativas de mercado apontando para um crescimento de 2,1%. Esses números indicam uma recuperação econômica, embora ainda tímida frente aos desafios estruturais que o Brasil enfrenta.

A decisão do BC de reduzir os juros de forma mais lenta foi justificada pelo aumento das incertezas, tanto locais quanto internacionais. Esse cenário exige cautela na condução da política monetária, para evitar desestabilizações maiores. A prudência é essencial em um contexto de volatilidade global e riscos internos elevados.

A última reunião do COPOM e a decisão de reduzir a Selic para 10,5% ilustram os complexos desafios que a economia brasileira enfrenta. A necessidade de equilibrar o estímulo econômico com o controle da inflação e a sustentabilidade fiscal é crucial. Como diz o ditado popular, “Quem tudo quer, tudo perde”. É necessário que o governo e os legisladores tenham prudência para não comprometer o futuro econômico do país em nome de ganhos imediatos, sob o risco de perder a estabilidade conquistada a duras penas.

quarta-feira, 8 de maio de 2024

O exterminador de empregos

A modernidade nos trouxe avanços inimagináveis em tecnologia e produtividade, mas com ela também surgiram novos desafios. Numa conferência conduzida pelo professor Paulo Eberhardt, foi evidenciado como a sociedade atual vem substituindo trabalhadores por máquinas e robôs, levantando preocupações sobre os impactos dessa transformação para o estado do Paraná. Sua investigação, focada nos impactos regionais da automação, revelou características preocupantes sobre os municípios mais vulneráveis a essa tendência.

A pesquisa identificou quais municípios paranaenses têm maior probabilidade de serem afetados pela substituição de trabalhadores por robôs, destacando as características dessas cidades. Um dos pontos mais preocupantes é a extinção potencial de várias ocupações, especialmente aquelas que requerem rotinas previsíveis, baixa criatividade e pouca interação social. Nos Estados Unidos, por exemplo, estudos prévios mostram que cerca de 47% dos empregos estão em alto risco de automação. No Brasil, estima-se que 3,57 milhões de trabalhadores formais estejam em ocupações com alta probabilidade de automação, enquanto 10,5 milhões têm uma média-alta propensão.

Os empregos mais suscetíveis à automação tendem a ser aqueles que requerem baixo nível de atividade cognitiva, como atividades agrícolas e de construção, frequentemente caracterizados por salários e níveis educacionais baixos. Municípios com uma população rural maior são particularmente vulneráveis, dado que essas atividades são predominantes. Marquinho, Ortigueira e Cerro Azul foram identificados como os mais propensos a serem impactados, dada a predominância de atividades agrícolas e de construção civil nessas localidades.

Em Marquinho, por exemplo, no ano de 2021, 1 em cada 10 empregos estava em ocupações com maior probabilidade de automação, como operadores de máquinas, trabalhadores de movimentação de terra e montadores de estruturas na construção civil. Esses dados ressaltam a necessidade de uma abordagem urgente e específica para a proteção das economias locais frente ao avanço das máquinas.

Os municípios menos urbanizados, especialmente nas áreas rurais, serão os mais afetados. Adicionalmente, estudos internacionais indicam que para cada robô introduzido na linha de produção, 3,3 trabalhadores são substituídos, resultando na redução da renda do trabalho e na concentração de riqueza para os detentores do capital.

Nas cidades, ocupações que envolvem atividades repetitivas e previsíveis, como caixas, operadores de telemarketing e trabalhadores em linhas de produção, correm risco. A automação tem sido implacável com os trabalhadores menos qualificados e com baixa escolaridade. Para esses grupos, a perda do emprego pode se traduzir em longos períodos de desemprego ou transição para funções ainda mais precarizadas.

A sociedade precisa refletir sobre os resultados dessas pesquisas e pressionar seus representantes políticos a debater e agir para mitigar os impactos da automação. Isso inclui implementar políticas públicas que incentivem a requalificação profissional e a educação continuada, além de promover a diversificação econômica e a criação de empregos de qualidade. Assim como no filme “O Exterminador do Futuro”, onde a inteligência artificial ameaça tomar o controle, precisamos assumir o protagonismo e nos adaptar às novas realidades sem renunciar a valores como inclusão e solidariedade. A automação pode abrir novas oportunidades para a humanidade, desde que nos esforcemos para não deixar ninguém para trás.


quarta-feira, 1 de maio de 2024

Desafios do Parlamentarismo Disfarçado

Em meio ao cenário político contemporâneo brasileiro, uma problemática evidente tem sido a crescente influência do Congresso Nacional na execução das despesas orçamentárias do governo federal. Historicamente, deputados federais e senadores vêm ampliando significativamente a demanda por emendas parlamentares ao orçamento da União. Essas emendas são essenciais para a representatividade e execução de projetos específicos nos estados e municípios, contudo, sua expansão desmedida tem se mostrado uma disfunção dentro do sistema político, comprometendo a integridade do orçamento, que se vê cada vez mais destinado a despesas obrigatórias.

Com a implementação do orçamento impositivo, a discricionariedade do Executivo na aplicação das despesas foi consideravelmente reduzida, ampliando o poder dos parlamentares em detrimento do planejamento estratégico das políticas públicas. Essa mudança estrutural conduziu a uma execução superficial de muitas políticas públicas, que não atingiram os objetivos esperados devido à miopia das indicações de gastos por emendas impositivas. A consequência é uma série de políticas fragmentadas, muitas vezes desconectadas das necessidades reais da população.

O apreço pelas emendas parlamentares é amplo e transversal a diferentes esferas do poder público, desde deputados e senadores até prefeitos, vereadores e gestores de órgãos públicos. Essa universalidade, no entanto, distorce o modelo político organizacional brasileiro, a ponto de críticos denominarem o sistema vigente de “parlamentarismo às avessas” ou “parlamentarismo disfarçado”. Nesse contexto, figuras como os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Ronaldo Caiado, de Goiás, ambos críticos do excesso de poder do Congresso Nacional mesmo sendo oposição ao governo Lula, defendem um reequilíbrio entre os Poderes Legislativo e Executivo.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também expressa preocupação com o excesso de poder dos parlamentares na utilização de emendas ao orçamento da União. Tal prática, além de distorcer o sistema político, está causando danos consideráveis à nossa economia. A necessidade de o governo federal exceder os gastos previstos para executar minimamente as políticas públicas leva a um déficit primário significativo. Este déficit, por sua vez, induz à manutenção dos juros básicos da economia em patamares elevados por mais tempo, contraindo a atividade econômica e afetando negativamente os setores industriais e comerciais.

A realidade apresentada é alarmante e demanda uma urgente reavaliação das práticas orçamentárias. Sem um ajuste de conduta entre o Executivo e o Legislativo, com uma retomada do orçamento destinado às políticas públicas planejadas, o Brasil poderá enfrentar um colapso na eficiência da execução da política fiscal, levando a sociedade a uma mobilidade social negativa, onde a qualidade de vida da população sofrerá deterioração.

Na busca por uma solução, devemos lembrar que “é melhor prevenir do que remediar”. A prevenção, neste contexto, implica uma reforma estrutural que corrija a dinâmica atual entre os poderes estatais, assegurando que a execução orçamentária atenda às reais necessidades da população. Esse novo arranjo não apenas propiciaria desenvolvimento econômico, mas também justiça social e eficácia governamental. Como “quem não arrisca, não petisca”, é fundamental que arrisquemos em busca de um sistema mais justo e funcional, para que as políticas públicas sejam não apenas um plano no papel, mas uma realidade efetiva.

 

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Um espelho distorcido

A xenofobia, caracterizada por uma aversão ou hostilidade direcionada a pessoas de outras nacionalidades, culturas ou etnias, é um mal persistente que desafia os fundamentos de qualquer sociedade que se pretende inclusiva e democrática. Tomemos, por exemplo, a situação fictícia de um trabalhador vietnamita na França, ridicularizado e ostracizado não por sua competência profissional, mas por sua origem e sotaque. Essas atitudes refletem preconceitos profundamente arraigados que encontram paralelos na realidade concreta de muitos brasileiros na Europa.

Um perturbador incidente em que uma brasileira foi expulsa de um clube de luxo em Madri destaca a xenofobia sistemática enfrentada por latino-americanos na Espanha e na França. A mulher foi publicamente humilhada e estigmatizada com estereótipos depreciativos sobre sua nacionalidade, refletindo um preconceito arraigado. Este caso, amplamente divulgado e seguido por uma avalanche de insultos online, evidencia a discriminação estrutural e sublinha a urgência de adotar medidas eficazes para erradicar a intolerância institucionalizada, garantindo assim a proteção dos direitos e a dignidade dos imigrantes.

Portugal, apesar de sua familiaridade cultural com o Brasil, não está isento de tais problemas. Muitos brasileiros relatam dificuldades em se integrar plenamente na sociedade portuguesa, enfrentando preconceitos ligados a estereótipos negativos e barreiras econômicas e documentais. A xenofobia, neste contexto, não apenas afeta a inclusão social, mas também reflete as tensões econômicas, com brasileiros sendo acusados de inflacionar o mercado de trabalho e de habitação.

Essa problemática não se restringe à Europa. No Brasil, imigrantes haitianos, venezuelanos e cubanos frequentemente enfrentam discriminação. Também é comum observarmos críticas à migração interna de brasileiros de diferentes regiões do país, o que destaca como a xenofobia pode manifestar-se em uma dimensão interna, afetando não apenas estrangeiros, mas também cidadãos dentro de seu próprio país.

Essencialmente, a maioria dos conflitos xenofóbicos tem uma base econômica, onde a competição por empregos e recursos amplifica o preconceito e a discriminação. Na Europa, a densidade demográfica e a presença significativa de estrangeiros intensificam esses desafios. Alguns países europeus estão até considerando programas de extradição voluntária para abrandar essas tensões, financiando o retorno de brasileiros ao seu país de origem.

Apesar de os estrangeiros ocuparem menos de 1% dos empregos formais em nossa região, na Europa, essa porcentagem é muito maior, o que pode ajudar a explicar a intensidade da xenofobia observada.

Diante deste panorama, é necessário promover a tolerância e a compreensão mútua. Como bem observou o filósofo Immanuel Kant, “O céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim” nos lembram da ordem universal da dignidade humana que deve guiar nossas ações. Os governos, tanto no Brasil quanto no exterior, devem reforçar o amparo aos imigrantes e assegurar a integridade de seus direitos, enquanto nós, como sociedade, devemos cultivar uma convivência respeitosa e inclusiva.

A xenofobia impede que vejamos nos outros um espelho de nossa própria humanidade. Ela é um espelho distorcido da sociedade global que precisamos quebrar e refazer, de modo que reflita um ser humano mais empático e solidário. Superar esse obstáculo é essencial para construir um mundo onde a diversidade é celebrada como um enriquecimento mútuo, e não vista como uma ameaça.


quarta-feira, 17 de abril de 2024

Ruralidade em risco

Em recente palestra ministrada pelo professor Eugenio Cejudo García, da Universidade de Granada, Espanha, os desafios enfrentados pelas áreas rurais na Europa, mais especificamente na Espanha, foram destacados. O foco de sua análise recai sobre o fenômeno preocupante do despovoamento rural, uma tendência que não é exclusiva da Europa, mas que ressoa em diversos cantos do mundo, incluindo a China e o Brasil.

O despovoamento rural, acompanhado do envelhecimento e da masculinização da população que permanece, é uma realidade alarmante. Na China, esse fenômeno é agravado pelo baixo nível de desenvolvimento rural e uma pobreza acentuada, estimulando uma migração massiva para as cidades. Esta migração gera, por sua vez, grandes concentrações urbanas nas periferias, exacerbando os impactos sociais e econômicos negativos nas áreas urbanas e aumentando a demanda por políticas públicas de assistência.

No Brasil, padrões similares foram observados nas décadas de 1950 a 1980, e esses movimentos migratórios não cessaram. Espera-se que o Censo Demográfico de 2022 capture esses eventos, o que deve instigar o setor público a conceber políticas que mitiguem os efeitos adversos tanto no campo quanto nas cidades. Contudo, há uma aparente resignação por parte de nossos políticos, que parecem aceitar esses eventos como inevitáveis, ao invés de buscar soluções inovadoras.

O desalento dos pequenos produtores rurais e a falta de sucessão nas propriedades levam à ocupação das terras por cultivos extensivos, como soja, trigo e milho. Este fenômeno levanta uma questão crítica: quem produzirá alimentos diversificados como hortaliças e frutas? Se tais produtos precisarem ser importados de outras regiões, isso refletirá em custos elevados e preços inflados, impactando no custo de vida da população.

O despovoamento rural não é uma situação que deve ser normalizada. Os pequenos municípios sofrem dramaticamente com a migração dos jovens para centros urbanos maiores, uma realidade que pode até mesmo ameaçar a viabilidade desses municípios. É necessário, portanto, reavaliar as condições de vida tanto nas áreas rurais que são abandonadas quanto nas áreas urbanas que recebem essas novas ondas migratórias.

A pesquisa e a conscientização sobre estes temas são críticas, mas a realidade mostra que o impacto desses estudos nas políticas públicas ainda é limitado. As universidades brasileiras estudam estes fenômenos, porém há uma lacuna evidente entre o conhecimento produzido e a sua aplicação prática no desenvolvimento de políticas públicas eficazes.

A filosofia de Jean-Jacques Rousseau enfatiza que quando o governo falha em proteger os direitos do povo ou é ineficaz, é dever do povo opor-se à inércia política para garantir sua liberdade e melhorar sua qualidade de vida. Assim, torna-se essencial reconhecer e agir decisivamente contra os desafios do mundo rural, evitando a aceitação passiva da deterioração dessas comunidades e seus impactos devastadores na sociedade.

O despovoamento rural e a urbanização descontrolada não são meros eventos estatísticos, são fenômenos palpáveis que impactam milhões de vidas. Assim, é imperativo que os agentes políticos levem em consideração as pesquisas universitárias que investigam essas questões. Dessa forma, garantimos que as políticas públicas sejam fundamentadas em uma análise aprofundada e compreensiva destes desafios, visando não somente soluções temporárias, mas também estratégias sustentáveis e eficazes para enfrentar estas questões críticas de forma contínua.


quarta-feira, 10 de abril de 2024

Controvérsias econômicas

A crítica contundente do Ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, ao método de controle inflacionário do Banco Central, utilizando a taxa Selic, que ele descreveu como “a forma burra de fazer” e afirmando que o Banco Central precisa estudar mais para conhecer os fundamentos da economia, destaca a necessidade de uma abordagem mais fundamentada e construtiva nos debates econômicos entre órgãos governamentais.

Tais declarações são expressivas e carregadas de implicações, não apenas pela natureza das críticas, mas também pelo perfil e histórico do crítico. Luiz Marinho, embora com uma trajetória respeitável no movimento sindical e na política, apresenta um currículo desprovido de formação especializada em economia. Isso não invalida sua capacidade de análise ou crítica, mas demanda um maior cuidado ao abordar temas de complexidade econômica. Ademais, suas experiências prévias como Ministro do Trabalho e Emprego e da Previdência Social, embora relevantes, não substituem a expertise econômica necessária para embasar críticas tão específicas às políticas monetárias.

A estratégia de controle inflacionário via taxa de juros, embora sujeita a debates e críticas, é fundamentada em teorias econômicas amplamente estudadas e aplicadas globalmente. Afirmar que os dirigentes do Banco Central, liderados por Roberto Campos Neto, não compreendem os “fundamentos da economia” parece não apenas uma simplificação, mas uma injustiça com profissionais que estão na linha de frente do combate à inflação, um mal que desgasta o poder de compra e afeta principalmente as camadas mais vulneráveis da população. Sem dúvida, a dosagem da política monetária é um debate válido, mas deve ser conduzido com argumentos técnicos e construtivos, não com adjetivações desqualificadoras.

A crítica de Marinho à política monetária do Banco Central também se choca com sua própria trajetória, especialmente considerando as incongruências em sua gestão na Previdência Social, onde os reajustes das aposentadorias e pensões ficaram abaixo dos aumentos do salário-mínimo, contradizendo sua retórica sindicalista e compromisso social. Essa discrepância entre discurso e ação mina a força de suas críticas atuais e sugere uma necessidade de introspecção e alinhamento entre prática e pregação.

Ademais, o compromisso feito por Marinho ao reassumir o Ministério do Trabalho e Emprego em 2023, de proteger os direitos trabalhistas e manter uma política de valorização do salário-mínimo, parece ainda não ter sido plenamente honrado, dada a persistente defasagem do salário-mínimo frente à inflação. Essa constatação reforça a ideia de que a atenção do Ministro talvez devesse estar mais voltada para a efetivação de suas próprias promessas e responsabilidades, em vez de dispersar foco em críticas a outras esferas de gestão.

No contexto das críticas de Marinho, é pertinente evocar a máxima do filósofo grego Aristóteles: “O todo é maior que a soma de suas partes”. Essa reflexão filosófica sublinha a importância de cada componente de um sistema em desempenhar sua função específica de maneira eficiente e harmônica. Aplicada ao debate em questão, sugere que a contribuição mais valiosa que cada líder e órgão governamental pode oferecer à sociedade é a execução diligente e competente de suas próprias tarefas. Quando cada parte foca em melhorar e otimizar sua própria atuação, o conjunto da sociedade se beneficia, pavimentando o caminho para um diálogo mais produtivo e menos polarizado sobre as políticas econômicas e sociais do país.