quarta-feira, 29 de julho de 2026

A conta que a urna esconde

Estamos em ano de eleição presidencial e, como economista que há anos acompanha a condução das políticas públicas, confesso um incômodo que se repete com pontualidade quase cronométrica. Todo ano eleitoral é sempre assim: o discurso se aquece, as promessas se multiplicam e a responsabilidade fiscal, silenciosamente, é empurrada para debaixo do tapete. Não se trata de pessimismo, mas de observação. Em 1975, o economista William Nordhaus formalizou o que chamamos de ciclo político oportunista: o político intervém na economia para maximizar votos, manipula o gasto público às vésperas do pleito e aposta na memória curta e na miopia do eleitor. Passadas décadas, a teoria segue rigorosamente válida entre nós.

O que mudou, e muito, foi o tamanho da conta. O Boletim Focus de 24 de julho, que reúne as expectativas de mercado, oferece um retrato que merece ser lido com atenção. Não como oráculo, mas como termômetro. As projeções apontam um IPCA de 5,12% para 2026, acima do centro da meta, uma taxa Selic mantida em impressionantes 14% ao ano e um crescimento do PIB de modestos 1,99%. Nada disso, isoladamente, seria catástrofe. O que preocupa está nas linhas fiscais. O mercado projeta um resultado primário negativo de 0,50% do PIB e um resultado nominal de assombrosos 8,70% do PIB no vermelho. A dívida líquida do setor público, hoje em 69,8% do PIB, caminha, segundo as mesmas projeções, para 79% até 2029.

Traduzindo os números: gastamos mais do que arrecadamos, pagamos juros altíssimos sobre uma dívida que só cresce e, ainda assim, entramos num ano em que a tentação de gastar é máxima. É aqui que a teoria de Nordhaus deixa de ser exercício acadêmico e vira alerta concreto. A pressão por expandir despesas, criar benefícios e anunciar obras às vésperas da eleição encontra terreno fértil justamente quando as contas já estão desequilibradas. O político aposta que o eleitor verá a obra inaugurada e esquecerá o boleto que virá depois.

E o boleto vem. Sempre vem. A poupança interna insuficiente nos torna dependentes do capital estrangeiro, e o investidor global não é sentimental. Com juros reais entre os mais altos do planeta, parte do investimento direto no país, projetado em torno de US$ 78 bilhões, busca apenas o prêmio da renda fixa, não o compromisso com o crescimento de longo prazo. Se a irresponsabilidade fiscal contaminar o discurso eleitoral, o câmbio reage, o risco sobe e a própria promessa de generosidade se converte em inflação, o mais cruel e regressivo dos impostos, que pesa sobre quem menos tem.

Não sou ingênuo a ponto de pregar austeridade cega, tampouco defensor de “salvadores da pátria”. Defendo algo mais simples e mais difícil: seriedade. O país não precisa de mais do mesmo, precisa de gestores que digam como pretendem equilibrar as contas, elevar a produtividade e sustentar o crescimento sem sacrificar o futuro pela conveniência do presente. Para crescer não bastam discursos populistas. É preciso ação efetiva. O resto, como já escrevi anteriormente, é conversa fiada.

Que o eleitor, neste 2026, troque a miopia pela lente da racionalidade. Que examine a trajetória completa de cada candidato, e não apenas o brilho da campanha. Porque a democracia cobra caro de quem escolhe pelo encantamento do momento. Encerro com o filósofo George Santayana, que nos legou uma advertência atemporal: “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. Que a memória, desta vez, seja mais longa que a estação eleitoral. O que está em jogo não é o próximo mandato, mas a conta que todos nós, indistintamente, seremos chamados a pagar.

 

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